DE GOTA EM GOTA, TRANSBORDAR(-SE)

Leo Fávaro, 2022

A água preenche todos os espaços. Por dentro, mata a sede; por fora, molha o rosto com sentimento, banha o corpo exausto. Faz das poças o playground dos passarinhos e do transbordar, o afogar das memórias. A água do trabalho também é a água do lazer. À margem, amores. Seus percursos agregam pessoas em afluentes de vida que pouco a pouco se concretizam com portas e janelas e telhados e trilhos e trens e oficinas e comércios e igrejas e escolas e distritos e municípios mais e mais e mais - às vezes tão mais que o percurso se desfaz. O que resta são nascentes de histórias.

 

É no minar dessas histórias que está João Neiva, margeada pelo contorno de rios, córregos, cachoeiras, chuvas e enchentes. Sem que nos demos conta, submersos no cotidiano, as águas da cidade continuam ali - e o que Rick Rodrigues traz com sua série “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura” é refresco para correr dos dias. Seus trabalhos transbordam encanto e reflexão na cidade onde orgulhosamente nasceu, mora e mantém seu reduto criativo. Em vez de seguir o tic-tac apressado da rotina, deparamo-nos com obras de fruição lenta, próxima e íntima, um convite para nos entregarmos à fluidez de sua arte como o fluxo manso de nossos flúmens.

 

Rick é cristalino. Ele não se esconde em suas obras; ao contrário, faz delas seu arauto para comunicar visual e poeticamente os rumos que sua vida toma e a direção de suas remadas. Como filetes d’água, o artista conecta vários pontos da cidade que confluem para um desaguar em comum, com endereço completo no CEP único do município. Rua Miguel Cabidelli, número 34, centro, João Neiva. Nunca morou ali, mas foi naquela casa, demolida em 2016, que Rick alicerçou parte de sua vivência, que hoje se torna acervo transversal. Foi assim que ele permitiu e partilhou o afeto com todos, conhecidos ou não, numa cidade em que conhecer as pessoas por nome, por filiação, por onde ela trabalha ou reside vem se tornando um hábito de resistência.

 

Em João Neiva, resistir é economia, é política, é meio ambiente, é educação, é lazer, é cultura, é saúde. É, antes de tudo, reminiscência e, depois de tudo, esperança. O artista, então, puxa esses fios e ata pontos - que seja num ponto de ônibus. Em “Costura como travessia. Memórias como afluentes”, Rick floresce o ir e vir das pessoas com seu tecer. Como se tivesse pegado mudas de flores da casa número 34 de sua avó, ele usa tecido sobre placa de acrílico para plantar e fazer sua própria primavera. “Rosa enquanto flor; rosa enquanto cor; Roza enquanto avó”. A técnica do ponto cruz, herdada de família, adapta-se a uma nova forma de contar a própria história, que também pode ser contada nos versos da homônima “Rosa”, de Pixinguinha: Da alma da mais linda flor / De mais ativo olor / Que na vida é preferida / Pelo beija-flor.

 

As flores estão presentes em seu fazer artístico desde suas primeiras exposições. Lá, elas eram encantadoramente frágeis vistas em bordados singelos, adornos diminutos, estampa de lenços e jardins de um microcosmo. Aqui, elas florescem e tomam proporções descomunais; fazem companhia para quem espera e desaceleram quem corre. A placa transparente posiciona as rosas num vergel urbano pelo qual é possível contemplar seus arredores de concreto. Não é meramente ver; é estar e significar-se na paisagem. Mas se “Tudo que não invento é falso”, as rosas de Rick Rodrigues são tão verdadeiras que podem ser desfeitas pelas mãos do público. E o desfazer, consoante a vida, é o natural para tomar novas formas. Ponto a ponto, flor e ser.

 

Longe da correnteza feita do vaivém das pessoas, o artista reflete seu existir. Diferente de Narciso, não se envaidece com sua imagem ou com aquelas que cria, fazendo-as de instrumentos para que a reflexão seja do público. No contrafluxo, Rick passa o Crubixá, passa Mundo Novo, passa o Domício e alcança o refúgio de nossas cachoeirinhas, aonde leva seu fiar. É lá que surgem várias de suas obras; uma cascata de inspiração. O cenário foi retratado pelo artista antes mesmo que ele observasse a água como elemento constante em seus trabalhos. Em 2013, ele pintou a bandeirola da patrulha Cachoeira do Inferno, do 8º Grupo Escoteiro Pedro Nolasco, na qual há, de um lado, um desenho da queda d’água que dá nome à equipe de jovens e, do outro, o nome dela com escrita estilizada. A peça seminal, feita com tinta sobre tecido e que também integra esta exposição, evidencia como naturalmente o líquido banha seu repertório.

 

Agregam o acervo temático pedras e madeiras autóctones, que se somam a tecidos, miniaturas, bordados e esboços que nos fazem mergulhar num universo próprio. A delicadeza expressa em diminutos objetos nos remetem à frugalidade da infância - ou como diria Rubem Braga, à poesia das coisas simples. Galhos de árvores constituem raízes e troncos que emergem da mobília em escala reduzida, criando volume que não se mede com régua, mas que hiperdimensiona devaneios e histórias infantis. Cristais fazem as vezes de gotas de chuva, enquanto seixos nos permitem sentir o fundo de um riacho. “Você está sonhando”, afirma Rick. O que é a arte senão um sonhar necessário para a limitada existência? Ao flutuar em suas provocações lúdicas e etéreas, alcançamos o encontro com a sinestesia fantasiosa: “o azul do céu tem cheiro de sonho”. Só sabe disso quem brinca no céu, quem vê as cores da vida, quem se permite sentir aromas e quem transborda sonhos para além de sua cama.

 

O bordado de Rick deságua em suportes não convencionais. Os pássaros, recorrentes em sua estética, atrelam-se à leveza de esvoaçar ao sabor do vento em bordados sobre sacolas plásticas. Num recorte imaginário, é possível vislumbrar esses pássaros-sacolas dançando no ar como em “Beleza Americana”. A constatação recai sobre nós como evocada no filme: é difícil manter-se louco quando há tanta beleza no mundo. Tecidos, cartões e sacos de papel são transpassados por linha e agulha como água esgueirando-se por frestas; para completar a narrativa, o artista forma um mapa alinhavando cursos fluviais que banham a cidade. Como numa composição desenhada pelo movimento da maré, esses objetos repousam sobre a areia até que uma nova onda, um novo ciclo reposicione peça por peça noutro lugar.

 

Feito chuva, o artista goteja seu fazer artístico em todo o município e deixa o solo pronto para receber sementes. As ações educativas propostas por Rick contemplam a formação em arte contemporânea oferecida a educadores e oficinas de bordado para os alunos. O resultado desses trabalhos pode ser contemplado pelo público no Centro Cultural, onde também é exibida uma obra inédita, concebida por ele em 2019, com o percurso dos dois principais rios de João Neiva, Clotário e Piraqueaçu. Noutro canto da cidade, na sede do projeto Confabulando, uma de suas obras mais memoráveis, o Monte Negro bordado sobre peneiras, ganha a companhia de poesia escrita por Helder Guasti.

 

Ao ar livre, Rick reproduz por meio de fotografia em larga escala seu Monte Negro, transpondo para um outdoor a ilustração do apoteótico relevo que dá boas-vindas a quem chega a João Neiva. Em outro outdoor, ele reproduz cinco bordados sobre caixas de remédio com elementos-chaves de seu fazer criativo: passarinhos, rosa e reflexões tão pessoais quanto universais. Ao questionar “o que permanece quando todos se vão?”, o artista reforça a inexorável função da memória e a necessidade de seu existir - resistir. Assim, a céu aberto, abrimos também suas gavetas e tudo que lhe atravessa. Travessia.

 

As obras de Rick Rodrigues são riacho perene de curso suave e fluxo calmo no qual se navega num barquinho de papel. É céu azul com brancas nuvens de pareidolia que bailam levemente e que despejam suavemente arte que lava a alma. É enchente que inunda a cidade de orgulho, que encharca espaços com cores, que deixa poesia em paredes e pessoas, que destrói muros e estabelece pontes. Na pequenez de seu trabalho encontra-se a vastidão poética de sensibilidade tão íntima que pode nos tocar e nos comover. Mover. E tudo segue seu próprio curso num rio que nunca é o mesmo e cuja foz é um oceano de vida. No fim, a água preenche todos os espaços.

Projeto contemplado pelo Edital 20/2020 - SELEÇÃO DE PROJETOS CULTURAIS SETORIAIS DE ARTES VISUAIS REALIZADOS NO ESTADO DO ESPÍRITO SANTO DA SECULT/ES, desenvolvido com recursos do FUNCULTURA.