TEXTO CURATORIAL – EXPOSIÇÃO O QUE DIZER SOBRE O NADA SEI (2015)

Galeria Georges Vincent, Belo Horizonte/MG

Texto: Daniellen Nogueira
 

 

Rick Rodrigues, capixaba e morador de João Neiva (ES), traz, em seus trabalhos, suas memórias pessoais e afetivas, os elementos que compuseram sua infância e as particularidades de seus trajetos. As montanhas, presentes em Vitória e ao longo do caminho percorrido até sua casa e seu quarteliê, ganham leveza e se misturam ao fundo do papel como um repertório de paisagens arquivadas, tendo suas densidades alternadas nas espessuras de seus contornos junto às casas, que se aglomeram e se apresentam como texturas arquiteturais no encontro de paredes e telhados.

 

Ao estar rodeado pelas séries, o espectador encontra-se imerso em um ambiente de experiências possibilitadas pelo compartilhamento de memórias e de mundos inventados pelo artista.

São águas de rios, mares, cachoeiras guardadas em garrafa suspensa. Barco de papel que navega pelas lembranças do artista e veleja pelas do espectador. Em suas caixas, cabem pequenos mundos: de escadas e de aviões de papel à casa de passarinho. Suas nuvens singelas, com extremidades finas, suportam a escada longa que guia nosso olhar – esse também que é levado pelo movimento pendular de um balanço.

 

Os desenhos de Rick apontam-nos para a liberdade da imaginação e para o não tolhimento dos sonhos e do poder criativo de criança. Rick, como sua referência (O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry), continua sendo aquele que vê o elefante engolido pela cobra, e não um chapéu. Coloca-nos frente a referências de nossas próprias memórias ao orquestrar elementos cotidianos como caixas, prendedores de roupas, guarda-chuvas, assim como um compositor que lida com diversas sonoridades e espaços de silêncio.

 

As memórias afetivas, que carregam a arquitetura de sua cidade e as paisagens de seus roteiros, são decodificadas no papel creme em tons monocromáticos. A organização dessas memórias cria esses cenários que permitem ser vivenciados, descobertos e imaginados como As Cidades Invisíveis de Ítalo Calvino, porém em formas, objetos, contornos, composições, linhas e degradês.

 

Elementos desses cenários (escada e casas de passarinho) adentram fisicamente o ambiente da galeria e a miudeza de ambos dialogam com o corpo do visitante da exposição. Para o artista, essas pequenas casas sem portas, somente com orifícios, relacionam-se tanto à ideia de abrigo, de refúgio, de segurança como à de liberdade. Pode-se ir (voar) e voltar, que as portas permanecem abertas.