Série “O que dizer sobre o nada sei”, desenho, 2015.

TEXTO MATERIAL EDUCATIVO | EXPOSIÇÃO CORPO-CASA

Carla Borba

As séries de desenhos em grafite seco (em cores vermelho e azul) do artista capixaba Rick Rodrigues parecem nos contar histórias provindas de lugares ocultos do universo dos sonhos e de fantasias. Conforme o artista comentou, suas referências poéticas são os livros Alice no País das Maravilhas do autor inglês Lewis Caroll, de 1865, e O Pequeno Príncipe do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, publicado em 1943. Partindo da imagem que nos vem em mente, referente ao pequeno príncipe, do desenho de uma jiboia que engoliu um elefante, mas que para os adultos era um chapéu e passando aos seres fantásticos do mundo de Alice, nos deparamos com objetos flutuando num vasto plano de fantasia e memória de Rick.

 

Nos encontramos dentro e fora dos trabalhos, mergulhamos em nossa memória fazendo que nosso corpo relembre de antigas sensações: de perto e de longe, as grandes verticalidades das escadas, do caminho secreto, das brincadeiras de esconde-esconde, do desejo gigante de brincar com um objeto interditado por sua fragilidade, ou seja, nos reportamos para outro tempo-espaço. O artista ilustra fragmentos de sua experiência de outrora e nos convida a descobrir que narrativas podemos construir e alinhavar a partir das paisagens, objetos e imagens presentes em seus desenhos, em sua fábula íntima. Uma coleção de miniaturas e objetos que o rodeiam ganham papel de destaque em seu trabalho. As paisagens com uma profundidade imensa mesclam um itinerário bastante percorrido pelo artista entre as cidades de João Neiva (ES) e Vitória (ES). Imagens que, de certa maneira, fazem-nos lembrar da nossa casa, dos diferentes aposentos, das coisas, dos objetos, de nossos usos e intimidades. Essa casa também pode ser simbolizada pelas gavetas, os cofres e os armários, não se esquecendo de que “a imagem aumenta os valores da realidade” (BACHELARD, 1975, pg.357), porque de dentro de uma gaveta, de um cofre ou armário, podem sair mais que objetos reais e formas cabíveis dentro deles; podem sair figuras imensas, sonhos, deformidades ou abstrações incalculáveis.

 

Dessa forma, essa ficha apresenta-se como uma chave para acionar as micronarrativas presentes no universo vasto e rico que existe em uma sala de aula.

Incluímos um conceito que consideramos importante para o desenvolvimento das ações:

 

“Como os artistas lidam com a questão da memória? Nas artes, a evocação das memórias pessoais, implica a construção de um lugar de resiliência, de demarcações de individualidades e impressões que se contrapõem a um panorama de comunicação à distância e de tecnologia virtual que tendem gradualmente a anular as noções de privacidade, ao mesmo tempo que dificultam trocas reais [...] É também o território de recriação e de reordenamento da existência – um testemunho de riquezas afetivas que o artista oferece ou insinua ao expectador, com a cumplicidade e a intimidade de quem abre um diário.” (CANTON, 2009. pg. 21-22)

 

Referências Bibliográficas:

BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. São Paulo: Abril Cultural, 1974.

CANTON, Kátia. Tempo e Memória. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

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