TEXTO CURATORIAL – EXPOSIÇÃO CORPO-CASA (2015)

Centro Cultural SESC Glória, Vitória/ES

Curadoria/Texto: Neusa Mendes

 

Rick Rodrigues formou-se em artes recentemente, mora em João Neiva (ES) – a 76 Km da capital do Estado - e fez questão desse trajeto todos os dias para a faculdade. Engendra da sua memória pessoal uma espécie de enciclopédia de fábulas.

 

Na sua obra há uma junção entre imagem e texto à cor monocrômica: azul e vermelha, mas especificamente grafite seco, onde pequenos desenhos de sapatos, caixas, globos, casinhas de passarinhos, cidades, nuvens, sobrepostos no vazio do papel de cor sempre creme, reconstrói rastros históricos. Às vezes, são pequenos fragmentos de palavras que insistem em aparecer por debaixo dos desenhos, em outras, aparecem decalcagens (estratégia que vem da gravura, interesse do artista), ora, alguns desses elementos tridimensionam-se, saem do papel e pousam na parede criando narrativas enviesadas “é tudo muito reduzido, eu gosto da estranheza que produz o objeto tridimensional junto do desenho. Causa incomodo [...] uma pequena escada de madeira que não é possível acessá-la, casinhas, caixinhas, aviãozinho que trago da memória da minha infância”.

 

 

A obra se potencializa na junção desses elementos construídos e ricocheteia rápida nos olhos, na cabeça e no coração. O artista é um exímio manipulador de símbolos e técnica, construindo uma obra capaz de expandir sua história pessoal de vida num jogo de identidade e suspenção do tempo, que resulta em pequenos testemunhos universais sobre passado, experiência do instante, amor e laços familiares. Ao mesmo tempo, é agradável perceber que esse local diante do espectador se expande e ganha um tom amplo; aproxima-se do protagonista e da atmosfera criados pelo artista que nada tem de delirante, e que parece habitar em nós. Para o artista, é importante mostrar “quem eu sou, de onde vim e o que está envolvido na minha formação”.

 

 

Assim, Rick Rodrigues outorga densidade a noções de história, memória e pertencimento, de tal modo que nos projetamos na entonação desse tempo.